ISSN: 2183-0266
TRABALHOS DE ANTROPOLOGIA E ETNOLOGIA
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número 44 (1-2) / 2004
                                                    A ANTROPOLOGIA

                                                                                           à memória de Abel Salazar
                                                                                     pela união da arte e da ciência

do outro lado do corredor
um rosto de índio iluminou-se.
vi-lhe as feições com nitidez
e perguntei qual a sua etnia.

notei depois, à medida
que se aproximava,
que pertencia a um corpo,
inteiro e em movimento;

e transportava alguns objectos,
tal como essas figuras animadas
que nas vitrinas dos museus
ilustram modos de vida.

e perguntei-lhe qual a sua tribo,
se o que trazia era para vender,
como tinha conseguido
penetrar na minha casa
em silêncio,
e aproximar-se de mim
assim tão subtilmente.

mas quando a sua cara
(exalando tons de tintas,
de óleos berrantes,
de unguentos escorregadios
com que se tinha besuntado)
chegou tão perto
que quase tocou a minha,
vi por detrás dela,
como numa fotografia,
um fundo de estantes
com seus livros alinhados.

é a biblioteca de antropologia,
pensei, o saber em que nós,
ocidentais, arrumámos
a humanidade inteira,
umas vezes por ordem alfabética,
outras vezes por graus de complexidade,
em geral do mais selvagem
para o requintado.

estão aqui registados
em ficheiros infinitos
todos os dados que se reportam
a comunidades extintas,
cada uma com seu nome,
tempo e região:
as cores de pele,
a forma dos cabelos,
as tatuagens e poses com que,
numa moldura de plantas e lianas,
ou sobre um quadro de planícies
a perder de vista,
nos olham desamparados,

com uma expressão
que se tornou ambígua,
opaca ao nosso entendimento,
própria do rosto
de todos os retratados,
e portanto dos que já habitam o limbo
entre a vida e a morte;

mas talvez também
porque foram apanhados
ainda em plena vida
no gesto jamais feito,
jamais preparado
para ficar assim;
e agora, na desfocagem
da sua fisionomia,
denunciam o estertor
dos que passam de pessoas
- ou seja, realidades vibráteis -
a objectos de observação científica,
parados para a contemplação
do nosso olhar.

esses arquivos, dantes,
ainda tinham os cheiros ultramarinos
que traíam as suas
diversas proveniências;
flores secas, pássaros captados
no voo, objectos de toda a sorte
encarcerados
na claustrofobia de vitrinas,
cadernos de campo
cheios de notas sobrepostas,
cartas recebidas da civilização,
com selos e carimbos antigos
de Paris, Londres ou Berlim.

e à noite, nos museus,
os guardas suspeitavam
que os silêncios das salas
eram atravessados
por sons de floresta,
por sussuros de saudade,
por passos de alguém que,
cansado da sua etiqueta
(de aborígene, de ameríndio,
de homo sapiens qualquer coisa,
de especialista já desaparecido,
de esposa de antropólogo
esperando numa estação,
de entomologista debruçado
no seu gabinete cheio
de odores químicos),

e iludindo a vigilância,
se dirigia para outra secção,
baralhando assim as nomenclaturas,
as taxonomias, todo o esforço
de gerações de missionários,
de viajantes, de coleccionadores,
de aventureiros, de sábios,
que se desprenderam de tudo
para, como dizem os seus diplomas,
ou as suas entradas de enciclopédia,
partir para longe e trazer novidades.

Hoje não há perigo de perda
ou fuga possível:
está tudo (pelo menos
na nossa imaginação ou desejo)
desinfectado, asséptico,
bem organizado
em gavetas polidas,
em bases de dados interactivas,
em imagens animadas
que vêm como assomos súbitos
à janela dos computadores.

é como se pudéssemos puxar
ao écrã da actualidade
todos os que morreram,
e jazem fotografados
de frente e de perfil
- um imenso cadastro,
uma incomensurável morgue.

e pô-la ao dispor de todos,
crianças e estudiosos,
citadinos e habitantes que,
da mais remota aldeia,
podem agora felizes aceder
à rede que também os envolve.
até a vida
que andava por aí,
desorganizada, leviana,
está lá apanhada
completamente,
pelo que tudo o que ocorre,
já ocorre porque há rede,
que é o alfa e o omega
do nosso tempo.

assim, para a forma
de saber totalitário
em que vivemos,
que respiramos,
que cada dia reforçamos,
o sábio já o era
a partir do primeiro
escrito de infância;
e o amante ardoroso
interrompera a acção
quando ia consumar o beijo,
para se dirigir ao funeral da amada,
uma vida depois.

Assim
tudo é limpo, correcto,
cada um faz o que deve ser,
não há descriminações,
as etnias de toda a terra
estão organizadas por ordem alfabética,
temática, geográfica, cronológica,
segundo as suas coordenadas
precisas.

e sorriem, cada uma
no seu pavilhão
da grande exposição universial
em que o mundo se transformou.

nada está fora do previsto,
a não ser talvez tu próprio, índio,
que me visitas ao fundo
da escuridão do corredor,
e para mim vais crescendo
com uma expressão indecifrável.

se voltaste para recuperar
as máscaras que coleccionei,
leva-as;
excepto uma, claro,
a mais evanescente de todas,
e que uso como rosto próprio.

há uma varanda nas traseiras
com caramanchão,
onde poderemos falar
da relatividade das culturas,
no meio de cactos, tucanos,
plantas e aves raras aqui.

e recordar tempos d'outrora,
fumar com a elegância
de príncipes da selva,
apresentar argumentos fortes,
com o vigor do pau-santo,
sentados sobre "chaises-longues",
enquanto contemplamos
os voos das araras.

servir-te-ei um chá
que já não encontras
em parte alguma, um odor
asiático, milagroso.

porém, se possível,
não me olhes tão fixamente.
rompe o silêncio,
que é a mais cruel
das encenações.

eu prometo, à vista da Lisboa
de quinhentos, que Lisboa ainda é,
com a sua azáfama portuária
e todas as ruas a descer
para o Tejo,
aqui, à sombra desta palmeira
centenária,
entre quadros maravilhosos
onde o tempo se fixou
aprender contigo antropologia
- essa ciência e essa arte
de nos deixarmos ainda espantar
com o mais trivial gesto,
a mais fugaz expressão,
sobre um mosaico horizontal
de remorsos e de feridas incuráveis,
que se estende, como num quadro de Dali,
até ao horizonte imaginável.

porque só com a diversidade do humano,
o carácter sempre inesperado dos dias,
mesmo que persistentemente
ausentes ou recalcados,
as abóboras, as volutas,
as colunas das árvores,
os arcos lançados ousadamente
para os firmamentos da geometria,
ganham sentido -
ou seja, alcançam um ponto
de interrogação.

espero que isso que a faca
que transportas
à frente do teu olhar fixo
traga a estética "etno" dos desenhos
incisos no seu cabo,
e não, ao contrário, a frieza vingativa,
brônzea, do gume:
a que, pelo verdete do golpe,
concede ao corpo atingido
a verde cor do desfalecimento.

                                                                                            Porto, Fevereiro de 2004 
                                                                                                Vítor Oliveira Jorge
Volume 44 (1-2) (2004)
​​Capa
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Estatuto Editorial
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​Preâmbulo

Intencionalidade, linguagem e valores. Contributos interdisciplinares
para a questão da universalidade e da diversidade da moral

Marina Prieto Afonso Lencastre

As etno-paisagens. A observação etnogeográfica das formas sociais
de modelagem do espaço

Armindo dos Santos

Características contextuais da prostituição de rua e do trabalho
sexual de interior

Alexandra Oliveira

Antiguidades orientais e conflitos internacionais: (a propósito de)
um episódio português em plena 1.ª Grande Guerra Mundial

Ana Cristina Martins

Uma proposta para reconceptualizar a materialidade arqueológica:
o Campaniforme no Norte de Portugal e regiões fronteiras
    (melhor qualidade)
João R. P. Rebuge

Prácticas de construção e reprodução de poder no Portugal rural do
século XVII ao século XIX. O caso do morgadio de Peroviseu e
Chãos (Fundão)

Judite Maria Nunes Esteves

V Á R I A

RECENSÃO de "A irrequietude das Pedras, Reflexões e experiências
de um arqueólogo"

João Muralha

Pierre Lemonnier no Porto


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